Friday, September 10, 2010 14:33

DUAS CABEÇAS DURAS.

Posted by Parelhas.NET on sábado, maio 1, 2010, 10:30
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Encontrei esta semana no Orkut, duas fotografias bem antigas do casal Joaquim Gondim e Dona Raimunda, na comunidade Descendentes de Parelhas, página “MUSEU VIRTUAL” e lembrei de um dos filhos do primeiro casamento daquele conterrâneo, chamado Severino Gondim da Silva, com quem convivi em São Paulo.
Era conhecido apenas como Severo, nasceu no Sítio Timbaúba, trabalhou no cabo da enxada ajudando o pai, não quis estudar e quando completou 18 anos veio para São Paulo, trazendo muita força física, alem da mala e um pedaço de papel com o endereço de um irmão que residia em São Caetano do Sul.
Desembarcou na Estação do Norte, Bairro do Braz, após nove dias de estrada com atoleiros, pontes caídas e pneus estourados. Mala numa mão e papel com o endereço na outra, saiu à procura do número 442 e somente depois de muita caminhada pelas ruas do bairro encontrou em frente à estação ferroviária, uma plaquinha com esse número e desconfiou que havia algo errado pois ali era um bar.
Entrou e perguntou ao balconista por seu irmão; o português disse que ali não morava nenhum irmão dele e ao ver o papel com o endereço, observou que era em São Caetano do Sul e não na Capital, orientando-o a pegar o trem e descer na estação daquela cidade, o que ele fez.
Chegando em São Caetano, novamente saiu à procura do número 442, andou, andou e achou – dessa vez na fachada de uma residência. Animado, bateu palmas e ao ser atendido, perguntou por João seu irmão e decepcionado ouviu que ali não morava ninguém com aquele nome. Mostrou o papel, explicou que acabava de chegar do norte, estava exausto e com fome. A pessoa que o atendeu explicou que o endereço era na Rua São Geraldo número 442, bairro Santa Maria e aquela ali era Rua Campos Sales, Centro, aconselhando-o a pegar um táxi que em poucos minutos chegaria lá.
Essa foi a estréia de Severo em São Paulo, no início do ano de 1958.
Poucos dias depois estava empregado em uma fábrica de refrigeradores, onde para iniciar, aprendeu a operar uma máquina que moia cacos de garrafas e os transformava em lã de vidro, que servia de isolante térmico, pois não haviam inventado o isopor.
Ele tinha vinte e dois irmãos, dos quais, mais de dez moravam no Estado de São Paulo. Na década de 70, com a morte de seu pai e logo em seguida também de sua madrasta, os herdeiros aqui residentes, para evitar a fragmentação da propriedade rural que possuíam, resolveram renunciar em favor daqueles que já estavam instalados nas terras a serem inventariadas. Foram todos a um Cartório e registraram tudo direitinho, ficando Severo encarregado de levar os documentos para os beneficiários.
Chegando a Parelhas, cuidou de ir logo ao sítio, mas antes passou no Supermercado de Zé Bileco, fez uma feira para mais de uma semana, comprou agrados para as crianças, encheu uma caixa de pães, bolachas, refrigerantes, juntou tudo a um fardo de tecidos e roupas que havia comprado na Rua 25 de Março e num carro de praça rumou para lá, pensando na agradável surpresa que ia fazer.
Pretendia ficar para o almoço e passar resto da semana na casa onde nasceu e viveu até completar dezoito anos. O inverno naquele ano tinha sido bom e ele escolhera viajar no mês de junho exatamente para comer umas melancias, pamonhas, canjicas, afinal faziam quase vinte anos que não passava um São João na terrinha. Até uma rede nova ele comprou, pois em São Paulo não dava para dormir em rede por causa do frio. Mas na realidade, o principal objetivo dessa viagem e que ele não revelara a ninguém, era rever uma namorada da época da juventude, que residia no Sítio vizinho e segundo informações, assim como ele, continuava solteira e bonita.
Chegou logo cedo e nem precisou gritar “ô de casa” pois de longe, viu o irmão no meio da vazante limpando o mato. Ao avistá-lo na porteira, seu irmão já foi gritando a todos os pulmões:
- Se você ta vindo aqui pensando que vai ter direito a um palmo desta terra, pode dar meia volta e sumir daqui porque estas terras já tem dono.
No começo pensou que fosse alguma brincadeira, mas Jofim, que tinha encostado o carro de ré junto à porteira, estava descarregando as mercadorias e quando viu a cena, jogou tudo dentro do porta-malas novamente, entrou no carro e gritou para que também entrasse depressa pois aquele camarada estava falando sério e que era melhor irem embora já.
Severo ainda tentou acalmá-lo, mostrando o envelope com os documentos que diziam exatamente o contrário do que ele estava pensando, mas não teve tempo para explicar nada, pois o irmão aproximou-se vermelho como uma pimenta, as veias do pescoço latejando em tempo de estourarem, gritando ameaças de morte, com o cabo da enxada em riste, caso ele permanecesse um minuto a mais ali.
Lembrou que o mano desde criança era famoso pela maneira violenta com que sempre agia e para evitar uma discussão com ele, colocou o envelope com os documentos no chão junto à porteira e entrou rápido no carro que já estava com o motor ligado. Antes da primeira curva, olhou para traz e viu seu irmão pegar o envelope e rasgá-lo em vários pedaços enquanto gritava impropérios e ameaças.
Na madrugada do dia seguinte, estava na frente do Restaurante de Cícero Rodrigues com a mala na mão, esperando o ônibus que vinha de Caicó com destino a Natal a fim de retornar para São Paulo, remoendo com amargura os acontecimentos da véspera.
O ônibus estacionou junto à calçada e ele estava na fila para entrar, quando surgiu um cavalo chispando e montado nele, aquele destemperado irmão, trazendo embrulhados em um jornal velho os pedaços dos documentos e antes de apear já foi dizendo:
- Severo! Ontem, depois que você já tinha saído, quando meu menino chegou da escola, juntou esses pedaços de papel e leu. Só aí entendi o que você estava querendo dizer, por isso vim lhe procurar para fazer um acordo.
Vendo que ele havia se arrependido da grosseria, pois até tirou o chapéu para falar, mas ainda profundamente magoado, respondeu como se já tivesse a resposta ensaiada:
- Então você morra e fique esperando no inferno, que quando eu morrer, se for pra lá e se esses papéis não tiverem queimado ainda, vou pensar no assunto.
E sem dizer mais nada, embarcou no coletivo em direção à capital potiguar, deixando ali o irmão tão atônito quanto ele havia ficado no dia anterior na porteira do sítio.

São Bernardo do Campo, maio de 2010.
Alínio S. Nascimento

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2 para disse em “DUAS CABEÇAS DURAS.”

  1. 2010.05.03 01:03

    Um flagrante do “Brasil Profundo”, mas na vizinhança do chamado Milagre Econômico, já o episódio narrado fala “Na década de 70″, mostra a lentidão como o progresso social e, por tabela o relacionamento familiar, têm chegado ao interior. Mais um salto no calendário de quatro décadas e cá estamos nós, no final da primeira década do século XXI, com a bôlsa família suprindo as necessidades básica de uma parcela significativa da população. Cabe então a pergunta talvez impertinente: PROGREDIMOS SOCIALMENTE DE FATO ou continuamos na mesma marcha batida de sempre? Responda quem souber. HERMANO PESSOA.

  2. 2010.08.22 15:05

    O conto está bonito e bem redigido! Lendo o texto penso que o escritor poderia redigir roteiros para filmes tipo: “Os filhos de Francisco”. No entanto o texto postado nesta página não corresponde à verdade sobre os fatos…

Você deve estar