Espécie invasora avança sobre Nordeste brasileiro e preocupa ambientalistas
Espécie invasora avança sobre Nordeste brasileiro e preocupa ambientalistas
Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), uma planta exótica, originária da ilha de Madagascar, tem avançado pela Caatinga brasileira e causado impactos ecológicos sobre a cadeia produtiva da carnaúba, palmeira símbolo dos estados do Ceará e do Piauí.
A cadeia de extração da carnaúba, da qual se extrai cera para exportação, movimenta bilhões e gera pelo menos 200 mil empregos diretos e indiretos. A colheita ocorre entre agosto e dezembro, no período de seca do bioma.
A planta invasora, chamada de unha-do-diabo (de nome científico Cryptostegia madagascariensis), é uma trepadeira exótica e agressiva, que tem gerado preocupação entre produtores rurais e o órgão ambiental brasileiro.
Em maio, o Ibama promoveu um encontro técnico com apoio da Associação Caatinga, a fim de tratar de estratégias para um Plano Nacional de Prevenção, Monitoramento e Manejo da espécie.
A unha-do-diabo é da família Apocynaceae, a mesma de plantas produtoras de látex, como a espirradeira e a seringueira. Veio para o Brasil como planta ornamental, mas escapou do cultivo doméstico e tornou-se invasora em biomas tropicais e subtropicais.
Por crescer de maneira rápida e ter facilidade para se desenvolver entre outras espécies, ela colonizou áreas abertas e margens de cursos d’água em grande quantidade. A unha-do-diabo também produz uma espécie de látex tóxico para plantas, para a pele humana e para outros animais.
De acordo com a Embrapa, espécies vegetais invasoras alteram a estrutura ecológica dos biomas porque competem por água, luz e nutrientes com plantas nativas; na Caatinga, bioma que corresponde a 10% do território nacional, a expansão da planta foi particularmente grave.
Como se prolifera às margens de corpos d’água, a planta forma muros verdes que dificultam o acesso de pessoas e animais, prejudicando a pesca e a irrigação.
O setor mais afetado é o da carnaúba, Copernicia prunifera, conhecida como “árvore da vida” no Nordeste. A planta invasora utiliza árvores e palmeiras como a carnaúba como suporte para escalar, sobe pelos troncos e cria camadas de biomassa que reduzem a incidência de luz e comprometem a fotossíntese e a extração da cera.
O controle da espécie é complexo porque o corte costuma ter efeitos de curto prazo, e os herbicidas representam um custo ambiental e econômico alto, além de serem potencialmente prejudiciais aos corpos hídricos.
Entre as soluções destacadas pelo Ibama, houve a possibilidade de usar o fungo Maravalia cryptostegiae, causador de uma ferrugem vegetal específica de espécies do gênero Cryptostegia, já empregado na Austrália contra outra espécie invasora do mesmo gênero da unha-do-diabo.
A ferrugem causada pelo fungo reduz o crescimento vegetativo e restringe a produção de sementes da planta. Ainda assim, a introdução de um agente biológico exótico exige rigor regulatório e estudos para saber como poderia afetar espécies nativas.